Caminhada do Orgulho Louco
Sem data - Crônica de Nilo Neto
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Talvez tenha sido mera coincidência, mas o fato é que essa nossa ilha
capital se chamava Vila de Nossa Senhora do Desterro, em seu longo período
pré-republicano de existência. Esse nome refere-se à passagem bíblica
chamada "Fuga do Egito", onde nossa senhora escapa da ira do rei Herodes,
carregando nos braços o menino Jesus, acompanhada de José.
Desde o começo, nossa cidade teve a vocação de abrigar todo tipo de:
degredado, fugido, condenado, herege, bruxa e pirata. Mais modernamente:
hippies, esotéricos, alternativos, anarquistas, e toda uma tribo de
outsiders vêm aportando nesse nosso pedacinho de terra perdido no mar.
E se esses desterrados, saudosos de suas terras e sonhos, conseguiram criar
por aqui um clima de magia, por outro lado, enterraram fundo na alma de
nossa gente uma necessidade de resistir à todo tipo de opressão.
Para citar as mais recentes, temos o genocídio praticado na ilha de
Anhatomirim, no final da década de 1890, que levou deste mundo os rebelados
contra a nova oligarquia republicana, que empurrava garganta abaixo seu
domínio, como naquele outro famoso episódio, conhecido por Revolta de
Canudos, e que aqui deixou marcas de dor nas famílias que viram seus filhos
sendo cruelmente assassinados pelo famigerado Coronel Moreira César.
Este senhor era o preposto do então presidente Floriano Peixoto. Para conter
sua trilha de matança das lideranças políticas locais, fieis a monarquia,
acabou sendo homenageado com o nome da cidade, Florianópolis.
Menos de um século depois, o episódio da Novembrada, marcou o fim da
Ditadura Militar no Brasil, graças a uma fortíssima manifestação popular
capaz de dar tapas na cara de Generais e Ministros, em plena praça XV.
Naquela ocasião, o presidente Figueiredo descerrou placa homenageando o tal
Floriano. Esta foi então pisoteada, queimada, mijada e jogada nas portas do
palácio do governo.
Este ano tivemos outro embate histórico que culminou com a vitória do
movimento do passe livre, que conseguiu mais uma vez demonstrar a força do
povo unido, contras as barbaridades da elite burra. Mesmo que persista
usurpando os direitos básicos de educação, saúde e lazer dos cidadãos. Todos
seriamente comprometidos pela corja de ladrões que exploram o suor e sangue
da população, através de um transporte publico caro e de péssima qualidade.
Neste contexto, no ultimo dia 13 de novembro aconteceu, aqui em Floripa, a
primeira caminhada do orgulho louco. Sob os auspícios da bem sucedida parada
do orgulho gay, associada ao ideário de ocupação dos latifúndios
improdutivos do MST, éramos cerca de 60 pessoas. Na primeira parte do
acontecimento, que começou cerca de 11 da manhã, manifestações culturais,
políticas e sociais, tomaram conta do largo da alfândega. Os passantes
puderam observar, ainda um pouco surpresos, de que forma pretendemos
construir a identidade do novo louco. Outrora excluído e abandonado, hoje
ele vem pra rua gritar que precisamos viver num mundo mais: solidário,
cooperativo, inclusivo e tolerante com as diferenças.
Na segunda parte do dia, por volta das 14 horas embarcamos em ônibus cedido
pelos companheiros do SINTUFSC (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade
Federal de Santa Catarina), parceiros desde a primeira hora e rumamos a
antiga Colônia Santana no vizinho município de São Jose. Hoje chamado de
Instituto de Psiquiatria, maior hospício público de Santa Catarina.
Lá esticamos nossas faixas e fizemos um minuto de silêncio, em homenagem aos
companheiros que permanecem presos na instituição. Depois palavra aberta aos
presentes que se manifestaram incentivando os internados, falando: paz,
harmonia, saúde, liberdade, autonomia, etc. Todas no sentido do fechamento do hospital,
para que seja transformado em espaço cultural,
de geração de renda e vida nova aos chamados "doentes mentais".
Questão de justiça lembrar o apoio imprescindível: da Presidência da
Assembléia Legislativa de Santa Catarina, fornecendo material de divulgação, do coletivo da
Radio de Tróia (102.9 FM livre), na divulgação e participação efetiva em todos os momentos do
evento, de integrantes do Maracatu Arrasta Ilha, do Fórum Catarinense de
Saúde Mental, dos músicos do grupo Parasol, e de toda a galera que esteve de
corpo e alma nessa empreitada diária de mudar o mundo.
Ano que vem, no segundo sábado de novembro, estaremos de volta, mais
atilados e certeiros, quais arqueiros zen, com nossas flechas-pensamentos,
prontos a derrubar os muros do preconceito, seja ele de que tipo for.
Nós, o coletivo dos loucos organizados, queremos a felicidade que nos cabe.
Falando nisso, o que você faz com sua loucura? Venha enlouque-ser com a
gente. Mudar o mundo é mudar a si mesmo. Quanto mais simples, maior o
espanto.
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