Da exclusão e da dor, ao sublime da arte e engajamento: uma apresentação de Maria do Socorro Santos
Sem data - Artigo do Prof. Eduardo Mourão Vasconcelos
Maria do Socorro Santos, nossa amiga pessoal, companheira de luta, artista e dona de uma enorme experiência e sabedoria sobre a vida, nos deixou no dia 5 de março de 2005, aos 52 anos, vítima de um enfarte do coração. Nos últimos anos, tive uma convivência muito próxima com ela, como amigo pessoal, como companheiro de luta e como andarilhos comuns no campo da arte. É pela saudade e pela gratidão de ter podido compartilhar de sua amizade, que gostaria de dizer algumas palavras sobre ela, particularmente para aqueles que não tiveram esta oportunidade de conhecê-la de perto.
Em sua história de vida, viveu na própria pele as situações mais radicais que os pobres, desviantes e excluídos deste país experienciam. Migrada muito jovem do Nordeste, conheceu aquilo que o antropólogo Roberto da Matta identifica como uma das formas mais dramáticas de opressão neste país: ser apenas um anônimo na multidão, fora de sua terra, em uma sociedade hierárquica, na qual o poder e o apoio social dependem fundamentalmente dos laços de conhecimento pessoal. Em sua peregrinação existencial, perdeu uma filha de quatro anos por atropelamento. Chegou a experimentar o alcoolismo, e em suas crises psíquicas, foi internada por mais de 20 vezes, inclusive em hospitais psiquiátricos convencionais, aqueles verdadeiros campos de concentração descritos no conhecido filme “Bicho de Sete Cabeças”, a partir do livro escrito por Austregésilo Carrano, “Canto dos malditos”.
Assim, quando a conhecemos, ao estigma e mortificação associados a esta condição de psiquiatrizada, se somavam portanto todas as outras formas de discriminação e exclusão: a de ser mulher, negra, migrada, pobre, de baixa escolaridade e sem família. Mas a medida em que a reforma psiquiátrica foi tomando corpo e sendo implementada no Brasil, Socorro pôde experienciar também um pouco daquilo por que lutamos: a construção de formas concretas de solidariedade e dignidade para os até então chamados apenas por loucos e doentes mentais, e a possibilidade de recuperar, ao seu próprio ritmo e forma, uma vida ativa pessoal, singular e participativa na sociedade. Socorro vivenciou estes serviços de saúde mental abertos e comunitários, os nossos centros de atenção psicossocial, nos quais iniciou seu processo de recuperação. Lá percebeu e desenvolveu suas vocações pessoais, dentre as quais a de imensa solidariedade e formas de apoio mútuo para seus companheiros, os usuários de serviços, em suas dificuldades do dia a dia, e principalmente - a grande paixão de sua vida -, a pintura.
Neste caminho, foi adotada pelo Instituto Franco Basaglia, conhecida ONG da luta antimanicomial e de defesa dos direitos no campo da saúde mental na cidade do Rio, onde encontrou um verdadeiro acolhimento, pôde melhor avançar seu processo de recuperação e desenvolver seu trabalho de apoio mútuo e pintura, como também abraçando de corpo e alma a causa da Luta Antimanicomial. No IFB, realizava trabalhos de secretaria, e principalmente, atividades de suporte mútuo e de desenvolvimento da autonomia entre usuários e familiares, bem como assumia o papel de representante destes junto a órgãos públicos e de formação profissional. Por exemplo, não era difícil achá-la dando palestras para alunos de graduação e profissionais formados de psicologia, enfermagem, serviço social, psiquiatria e outras profissões, quando falava da visão dos usuários e familiares e de como gostariam que fossem tratados nos serviços e o trabalho profissional no campo da saúde mental. Sobre esta sua luta, ela mesma afirmava: “Queremos uma sociedade em que ninguém vai te excluir, mas sim incluir. A nossa sociedade vai ser igual à sociedade de cada um”. Participou de inúmeros encontros regionais e nacionais da luta antimanicomial, e ultimamente, era responsável inclusive por um dos cargos da diretoria do IFB. Nos últimos anos, nós, do Projeto Transversões da Escola de Serviço Social da UFRJ, também a adotamos, e com ela vínhamos desenvolvendo algumas idéias e projetos, particularmente na promoção de sua pintura.
Em todo este percurso, Socorro conquistou parte daquilo que a vida lhe negara. Ela dizia que nós, amigos e companheiros do IFB, da luta antimanicomial e das oficinas de pintura e teatro, éramos a sua verdadeira família, a que substituía aquela dos laços de parentesco, que ela nunca teve.
Mas temos que reconhecer que talvez a vida não tenha lhe possibilitado mais tempo para poder colher todos os frutos e o reconhecimento pelo seu trabalho, particularmente na arte. Suas pinturas são surpreendentes, causam um enorme impacto, e têm um alto valor estético. De forma espontânea, sem nunca ter visto os clássicos da pintura moderna, Socorro desenvolveu linguagens próprias que têm muitas semelhanças com Chagall, Guinhard, Appel, Macke, Mikhail Larionov, entre outros. Só mais recentemente, quando eu lhe mostrava a coincidência, ela ficava surpresa, e passou a levar para casa livros de pintura e pesquisar com avidez os estilos destes pintores. Socorro chegou a ter em vida algum reconhecimento, tendo trabalhos expostos em várias exibições, algumas de caráter nacional, além de ter disponibilizado seus trabalhos para capas de algumas publicações do campo da saúde mental.
Entretanto, além do caráter estético, há outras dimensões fundamentais em sua pintura. Uma delas é a capacidade de expressar essa experiência tão forte, parte da sabedoria humana ao mesmo tempo mais simples e mais profunda, de transmutar dor e sofrimento, em arte e beleza. Ela mesma escreveu a respeito de uma de suas pinturas: “pintei o meu rosto para não mostrar a minha dor. Colori minha lágrima como se fosse um pingente”. Pelo seu mérito de percorrer essa experiência de vida tão difícil e essa vivência existencial tão radical de contato mais direto com o inconsciente, e ser capaz de projetá-la de forma sublimada em sua arte, ela nos oferece uma grande oportunidade de acompanhar, com o olhar mais apropriado da contemplação artística, essa verdadeira aventura humana.
Nesta mesma direção se desdobra uma dimensão paralela e fundamental de sua obra, que é a riqueza expressiva e projetiva, de enorme riqueza simbólica e psicológica. Cada um de seus quadros é povoado pelas imagens e seres que habitavam sua imaginação e história pessoal. Era um prazer sentar com ela em torno de suas pinturas, e ouvi-la falar dos personagens de cada obra. Freud, e particularmente Jung (sem esquecer no Brasil, sua discípula, Nise da Silveira), foram os pioneiros em nos mostrar mais sistematicamente essa capacidade humana de revelar, através da arte, a alma humana em toda a sua riqueza e dinâmica, ao mesmo tempo singular, expressando a individualidade de cada ser humano, e igualmente universal, por comungarmos as estruturas básicas e comuns do inconsciente.
Além disso, nos chamou a atenção, do ponto de vista da reabilitação em saúde mental, como Socorro encarnava esta potencialidade da arte e da pintura como caminho da recuperação. Algumas vezes, ela passava fome para poder comprar um tubo de tinta que não podia faltar, e nos dizia que se fosse obrigada a parar de pintar, ela certamente enlouqueceria. Garantir esse suprimento de tintas inclusive foi um enorme desafio para ela, juntamente com os amigos que a ajudavam. Assim, acima de tudo, Socorro deve ser conhecida por sua enorme teimosia em lutar, a despeito de todas as dificuldades, pelo seu projeto pessoal de vida e de arte, como o caminho para realizar a sua experiência humana e para a sua individuação. Uma vez ela colocou no papel, dentre os escritos pessoais e poesias que escrevia para os amigos, o seguinte trecho:
“Não devemos abrir mão daquilo que mais gostamos de fazer, seja o que for. Ao passar pelos sonhos mais difíceis, não devemos desistir de nada. Pois acredito muito no que cada um de nós escolheu para fazer e ter prazer, sem que nada nos impeça, não importa a idade. Não sei se posso chamar de terapia, mas uma coisa eu garanto: fazer um trabalho que a gente gosta é como se estivesse realizando cada minuto dos seus momentos mais felizes. Pois é assim que me sinto em cada uma das pinturas que faço.”
É por todos esses motivos, que convido seus amigos – sua verdadeira família -, para divulgarmos sua memória e sua obra. Seu exemplo certamente inspirará muitos outros. Primeiramente, a nós, trabalhadores da saúde mental, para podermos aprender com alguém que falava ‘de dentro', das sutilezas do processo de recuperação. Mas sua história e a beleza de sua obra certamente serão fundamentais para seus companheiros usuários, particularmente aqueles que estão se iniciando neste caminho tão desafiador de enfrentar a exclusão social, a dor da presença transbordante do inconsciente, o estigma e as dificuldades da assistência em saúde mental, e mesmo assim, terem esperança e serem capazes de construir, à sua maneira, um projeto singular, rico e engajado de vida e de lutas.
*Psicólogo, cientista político, coordenador do Projeto Transversões, e professor da Escola de Serviço Social da UFRJ
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