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Luta anti-manicomial, Saúde Mental, Serviços substitutivos
Loucura: espelho da sociedade
Folha da Manhã (MG)
30 de outubro de 2005
JOSY GONÇALVES Da Redação
Em Pratápolis, os PSFs, que já desenvolvem trabalhos na área de saúde, voltam-se também agora para os problemas relacionados a distúrbios mentais.A iniciativa é da prefeitura da cidade, que busca com isso prevenir as doenças mentais, ou quando necessário, direcionar o atendimento para a socialização do paciente.
Na cidade funcionam três PSFs e atualmente eles vêm integrando ao atendimento corriqueiro do posto a assistência na área de saúde mental. São realizados trabalhos com os pacientes de "sofrimento psíquico" como atividades de lazer pessoal, oficina de música, ginástica, dinâmica de grupo e oficina de relaxamento.
Este tratamento na área de saúde mental, que age pela terapia, é uma nova tendência resgatada da própria luta antimanicomial, que procura descobrir as causas do distúrbio ao mesmo tempo em que trata cada paciente de acordo com as suas particularidades."O que tentamos evitar são os psicotrópicos e as internações em hospitais psiquiátricos", explica Hélio de Lima Júnior, secretário de saúde de Pratápolis e psicólogo.
O próprio posto de atendimento encaminha para as atividades aquelas pessoas que demonstram algum sintoma de angústia, isolamento, ou qualquer problema relacionado a saúde mental."Qualquer ser humano tem seu grau de desenvolvimento psíquico, por isso é importante constatar os distúrbios antes, para se prevenir" diz Hélio.
Conforme psicólogo, toda doença tem 90% de causa psicossomática. Assim, o secretário acredita que esta nova forma de tratamento também pode ajudar na prevenção das doenças em geral. As atividades terapêuticas são abertas a comunidade, porém as pessoas da terceira idade ou portadores de doenças psíquicas tem prioridades.
Toda reestruturação no tratamento de doenças mentais, que se aplica diretamente nos PSFs, faz parte do projeto da Reforma Psiquiátrica, uma proposta nova que retira o doente da reclusão aos hospitais. O tratamento tenta encontrar as causas que levaram ao distúrbio, mantendo o paciente em convívio com a sociedade.
O principal objetivo da Reforma Psiquiatrica, junto ao movimento antimanicomial, é acabar com os hospitais psiquiátricos e aderir a novas formas de tratamento, atentando -se a particularidades de cada paciente."Não adianta só fechar hospitais, é importante criar possibilidades de tratamento, e também não dá para padronizar medicamentos, cada caso é particular" afirma Hélio.
Em Itaú de Minas, o psicólogo utiliza a mesma técnica como tratamento. Através do grupo terapêutico "Amigos para Sempre", que conta com 90 pessoas e existe há 12 anos, conseguiu se reduzir o número de internações, a quantidade de medicamentos e houve melhora nos quadros evolutivos da doença mental.
Para o médico, evitando o isolamento do "doente mental", quebra-se o preconceito, pois ele passa a viver em sociedade através da socialização."Tratamos e integramos o paciente à sociedade. Tenta-se quebrar preconceitos, nem falamos mais doente mental, mas sim doentes com sofrimento psíquicos" conclui Hélio.
O médico psiquiatra Dr. Maurício Giubilei explica que o trabalho dentro dos PSFs é de promoção da ação social e educação."Nas visitas as casas, os agentes de saúde acabam encontrando pessoas com problemas de saúde mental. Hoje eles estão se capacitando mais para lidar com casos como esses" fala o médico.
Psiquiatria x Psicologia
Sempre se discutiu no país sobre as formas de tratamentos para as doenças mentais. No âmbito das discussões, duas linhas se contrapõem, a psiquiatria e a psicologia.
A linha psiquiátrica trata distúrbios mentais como doenças de predisposição genética, enquanto a psicológica atribui a doença a fatores sociais, o meio é o fator base.
Seguindo conceitos próprios, surge na área de tratamentos psíquicos a luta antimanicomial, que tem como objetivo acabar com os hospitais psiquiátricos, pois acredita que o paciente não deve ficar "preso" a um hospital, mas sim ter um tratamento que permita sua reintegração a sociedade enquanto se investiga as verdadeiras causas que levaram ao distúrbio.
Dr.Maurício Giubilei, participa de um movimento dentro da classe psiquiátrica, que objetiva se posicionar diante da questão do atendimento ao doente mental no país. A discussão ocorre em torno do fato de que não basta simplesmente fechar os hospitais psiquiátricos, como anseia a luta antimanicomial, mas sim melhorar o atendimento nesta área."Tem que melhorar o atendimento do doente mental, porém não implica necessariamente em fechar hospitais" afirma Maurício.
Conforme Maurício, antes de 1990 havia no estado 43 hospitais, hoje existe apenas 20. Até os leitos de internação reduziram de 8081 para 3500.
Atualmente funciona no estado de Minas Gerais o Centro de Atenção Psico-Social -"CAPS", local em que o paciente é assistido com medicamentos e também com atividades terapêuticas, sem ficar interno. Ele apenas passa o dia na instituição.
Ainda em fase de estudo quanto a sua efetividade e resolutividade, o que se observou pelo próprio Maurício, é que o CAPS não tem sido um meio efetivo de substituição dos hospitais, mas tem mostrado resultados como tratamento complementar de atenção a saúde mental.
Para o psiquiatra Maurício, o individuo já adoecido precisa tomar medicamentos, mas ele também acredita que quanto menor o tempo de internação melhor. O médico aposta ainda em um trabalho de equipe entre psicólogos e psiquiatras."Somos contra o manicômio, buscamos um hospital psiquiátrico humanizado" comenta.
O médico finaliza dizendo que não dá para fechar uma coisa que ainda é útil, o hospital. E conclui afirmando que "todos tem a semente (predisposição genética a loucura) e algumas germinam".
Do ponto de vista psicológico, Chenia Le Sénécal Maia, psicóloga, comenta sobre o assunto.Segundo ela, normalmente as pessoas ao apresentarem distúrbios mentais, procuram pelo psiquiatra.Porém,nem sempre é preciso medicar, em certos casos apenas o acompanhamento psicológico resolve."Derrepente a pessoa está com problemas como separação, morte de algum familiar, mudança de emprego e basta buscar solução junto a estas causa, não precisa medicar" diz Chenia.
Contudo, a psicóloga aponta a importância de um tratamento em parceria de ambos os profissionais, psiquiatras e psicológos. De acordo com ela, o psicológo tenta encontrar a solução nas causas que levaram aos problemas mentais, mas em caso do paciente caminha para uma fase aguda da doença, ele precisará se medicar."O medicamento é uma bengala, alivia mas não cura, quem quebra a perna precisa da bengala para se apoiar e da fisioterapia para solucionar o problema" diz .
Para a médica, todo paciente que ainda tem o senso de realidade preservado pode se tratar sem necessidade de internação ."Internar pode fazer a pessoa se sentir louca, até pelo preconceito que ela enfrentará da sociedade e isto pode agravar o quadro", explica Chenia A psicologia estuda as causas que levarão a loucura, por enxergar que seria ineficaz um tratamento que apenas curasse o doente mental naquele estágio agudo.Pela psicologia, não adianta apenas internar e medicar, porque existe fatores externos no meio social do paciente que o levarão a desenvolver a insanidade, sendo assim, estas causas também devem ser consideradas e tratadas.
Chenia julga a internação necessária em situações em que o paciente extrapola em sua alucinações e torna díficil para a família dar o suporte adequado.
Hospital Otto Krakauer
O Hospital Otto Krakauer funciona em Passos há 32 anos e atende 82 municípios da região.
Adotando um modelo de atendimento com multiprofissionais, a instituição é composta por uma equipe de psicólogos, terapêutas, enfermeiros, psiquiatras, monitores e outros.
Funcionando em regime de internação, o objetivo central da entidade é tirar o paciente da fase aguda da doença mental. Porém, para o paciente ser assistido pelo Otto ele precisa antes passar por uma avaliação."Não é porta aberta, tem que antes receber encaminhamento médico", explica o diretor clínico e médico Sandro Borges Reis.
Trabalhando na tentativa de reintegrar o cidadão a sociedade, o hospital busca a resocialização do doente psíquico."Tem visitas familiares, festas, passeios, quando o paciente tem condições ele vai até as compras"diz Sandro Quando questionado sobre a proposta do governo em acabar com as internações, o diretor explica que não é contra a idéia, porém, salienta que primeiro é preciso reestruturar o atendimento fora dos hospitais, como por exemplo no CAPS. "Hospitais não são contra a luta antimanicomial, que é a desinstitucionalização do atendimento, mais não resolve só fechar os hospitais, tem que ter estrutura para isso" explica o diretor.
Em Passos funciona o CAPS, que é um posto de atendimento que tem a prioridade de evitar a internação dos portadores de distúrbios mentais, através de terapias e observações das causas pelo meio social em que vive o indivíduo. O problema é que o CAPS dispõe de apenas um psiquiatra para atender cerca de 350 mil pessoas.
De acordo com o diretor clínico do Otto, o governo pretende acabar com as internações, mas não está propiciando condições externas para a alcançar o objetivo."Quero evitar internações, então eu corto as verbas e ai fecha, mas eu não estruturo lá fora" fala Sandro sobre a atitude do governo.
Segundo Sandro o custo para manter um paciente internado gira em torno de R$1,8 mil ao mês, porém o governo custea a metade."O governo cortou a cota de investimentos em 50%, e a justificativa é a luta antimanicomial", finaliza o médico.
Nacional
Com o intuito de estimular as 75 microrregiões do Estado a implantarem novas políticas públicas de saúde mental para crianças e adolescentes, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) realizou nos dias 24, 25 e 26 de outubro, o I Seminário Estadual de Atenção à Saúde Mental da Criança e Adolescente, a partir das experiências existentes em alguns municípios de Minas Gerais.
A Coordenação de Saúde Mental da SES constatou a seriedade e os desafios que a Rede de Medidas Sócio-educativas de Belo Horizonte enfrenta, para a formulação e implantação dessas políticas, que visam melhores condições de vida a esses cidadãos.
Diante disso, passou a integrar, efetivamente, a rede, assumindo a responsabilidade que lhe compete em relação à Saúde Mental, para desenvolver serviços da área, em consonância com os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA e condizentes com a realidade de cada microrregião de Minas Gerais. "Queremos conhecer profundamente a Rede de Saúde que atende às crianças e adolescentes do nosso Estado. Este é um movimento articulado interinstitucional, que envolve a SES, o Judiciário, as Ongs e o Ministério Público", disse Marta Elizabeth de Souza, coordenadora de Saúde Mental da SES.
Na solenidade de abertura, o superintendente estadual de Assistência à Saúde, Benedito Scaranci, afirmou ser essencial a organização da Atenção Básica, dentro de cada município; espaço fundamental para acontecer a integração do trabalho de prevenção e promoção da Saúde Mental da criança e do adolescente.
Alguns programas, já desenvolvidos e amplamente implantados pela Saúde Estadual, como o Programa de Saúde da Família (PSF), "Saúde na Escola" e o "Viva Vida", estabelecem uma conjunção de ações que atingem esse público e demonstram a preocupação do Governo de Minas em priorizar e avançar na construção de uma real melhoria na qualidade de vida e da assistência total para a consolidação dos direitos de cidadania dos jovens deste Estado. "O quorum de hoje mostra a relevância do tema. Do ponto de vista da SES, há um amplo interesse na temática que não é restrita à saúde. Não só o Executivo, mas também o Judiciário e as Sociedades Organizadas devem debruçar nesta proposição, empenhar-se na integração de todos e buscar evoluir na qualidade do atendimento à criança e ao adolescente", enfatizou Scaranci.
Palestrante Rosalina Martins Teixeira, especialista em saúde mental, membro da equipe colegiada da Coordenação Municipal de Saúde Mental de Belo Horizonte e representante do Fórum Mineiro de Saúde Mental, falou dos princípios fundamentais que deve seguir uma clínica antimanicomial para crianças e adolescentes. "O Seminário marca a parceria entre a Justiça e a Saúde para a constituição das políticas de saúde em todo o Estado".
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