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Juquery: os mortos sem sobrecasaca
27/12/05 - Artigo de Pedro Gabriel Delgado sobre a recente destruição da biblioteca do Juquery.

Juquery: os mortos sem sobrecasaca

Pedro Gabriel Delgado (1)


O pavilhão central do Juquery, aquele do relógio e da biblioteca, foi destruído por um incêndio ? Os prontuários que refletiam “o espelho da vida”, a revista mais antiga da psiquiatria brasileira (encadernada ali mesmo, no velho hospício), os livros alemães e franceses anotados a lápis, a carta de Freud à direção do asilo, os internos erguendo os muros que iriam confiná-los, a nos olhar dentro de retratos cinzentos – tudo queimado?

Num livro de 1911, o Dr. Franco da Rocha disse uma frase admirável: que tudo o que seria descrito ali, para ciência e formação dos jovens médicos interessados na loucura, tinha sido “copiado dos doentes”. Copiado: não aprendido, intuído, extraído, analisado, mas copiado. A psiquiatria, que ensaiava seu mergulho definitivo na Fenomenologia (logo depois, em 1913, sairia na Alemanha a Psicopatologia Geral de Jaspers), se construía sobre a experiência viva, facial, gestual, biográfica, da cena trágica da loucura. Empatia, Einfühlung, sofrer com, infelizmente debaixo da limitação sem saída dos muros do Asylo. Juquery. Franco da Rocha morreu em 1933, no mesmo ano de Juliano Moreira, cujo sepultamento, no Rio, acompanhado por multidão, foi referido nos jornais como “a morte de um sábio”.

Foi o fim de um ciclo, das grandes colônias de alienados, do trabalho (“um estimulante geral”) agrícola semi-escravo, mas terapêutico, da loucura colocada distante dos centros urbanos.

Mas veio a seguir a modernização do período Capanema, no Estado Novo e depois, com os hospícios públicos nas capitais dos estados. Só então surgiu a verdadeira idade do ouro do alienismo no Brasil, com a expansão impressionante dos hospitais psiquiátricos a partir de 1966, na ditadura militar.

Voltemos ao velho alienista Dr. Franco da Rocha, que organizou meticulosamente a biblioteca e o arquivo de prontuários (140 mil histórias de vida!) do Hospício do Juquery. Conheci alguns funcionários exemplares, herdeiros de outros dedicados guardiães da memória copiada dos doentes, naquela biblioteca extraordinária. Trabalhei com alguns desses zelosos arquivistas na Colônia Juliano Moreira, fundada no Rio pelo alienista baiano, que sintetizou, com Franco da Rocha, a psiquiatria brasileira da Belle Époque.

Mas este estupor pela notícia do raio cósmico que se abateu sobre a memória do Juquery se interrompe aqui, com uma lembrança dos anos 80, e uma informação de poucos dias atrás.

Juquery. O psiquiatra fenomenologista, desviando-se de pacientes seminus deitados no cimento de um pavilhão, disse solene: isto é o fracasso do projeto do Ser ! Disse-o em espanhol, sua língua materna, numa tarde sufocante dos anos 80, e vou traduzi-lo para os leitores: a mesma Fenomenologia Psiquiátrica, que “lia” seu saber nos próprios doentes, tinha passado por algumas vicissitudes, da Daseinanalyse heiddegeriana de antes da guerra ao existencialismo meio nihilista do pós-guerra. Tradução: aquelas pessoas, pretas, pardas, pobres – e loucas, abandonadas naquele chão imundo do Pavilhão... cumpriam seu destino do Fracasso ! Pagavam o preço altíssimo da falência de seu Projeto ! (sempre com maiúsculas, nesta retórica grandiloqüente de uma psiquiatria sem sujeitos).

A memória em papel está dolorosamente destruída. Mas o velho relógio de Franco da Rocha está lá, e pode ser restaurado. Que tempo marcou este relógio, de 1899 até 2005 ? Seu tique-taque secular, o que marcou ?

A vida. A vida de dezenas de milhares de cidadãos que encerraram dentro dos muros do Juquery e outros asilos brasileiros suas biografias loucas e cinzentas. Mas vida !

Ninguém se feriu no incêndio do Juquery. Nem seus funcionários, nem os pacientes. Existem lá quase 700 homens e mulheres. Vivos. Apegados ao resto de lar – mesmo que no cimento frio e áspero – que uma política errada de saúde mental lhes reservou. Mesmo confinados, seu lar das últimas décadas, seu apego a esta homeland restrita, é seu espaço de liberdade.

Nas últimas semanas, muitos pacientes vêm sendo transferidos para outras instituições no interior do estado.

Ao longo de sua história, o velho asilo já viu outras transferências de pacientes, outras iniciativas de transinstitucionalização, sempre traumáticas. Olhemos nos olhos os moradores de Juquery. Vamos cuidar deles com delicadeza, construir com eles, cada um deles, a saída do confinamento-lar.

Num poema de Drummond, os vermes começam a roer as sobrecasacas dos velhos retratos amarelos de um álbum de família. Parecem roer tudo, reduzir tudo a cinzas, como depois do incêndio no arquivo de prontuários. Só não conseguem “roer o imortal soluço de vida que rebentava, que rebentava daquelas páginas”.
(21.12.05)

(1)Psiquiatra, coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde.

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