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Saúde Mental
Quando a mente falha
Correio Braziliense (DF)
> Brasil
17 de janeiro de 2006
SAÚDE
Estudo da Faculdade de Medicina da USP revela que transtornos mentais são mais comuns em mulheres,
jovens e pessoas de baixa renda. Um em cada quatro paulistanos entrevistados apresenta problemas
DA EQUIPE DO CORREIO
Falta de escolaridade, baixa renda e exclusão social afetam a saúde mental. A constatação é de pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) feita com 2.337 pessoas atendidas pelo Programa Saúde da Família de 2001 até hoje. De acordo com o estudo, as más condições rocio-econômicas são fatores determinantes para o desenvolvimento de transtornos mentais. O estudo alerta também que o estresse, a ansiedade e a depressão, se não tratados, correm o risco de evoluir para doenças psiquiátricas mais graves.
O estudo foi realizado em Vila Nova Cachoeirinha e na Vila Curuçá, na Região Metropolitana de São Paulo, e na Zona Norte e Leste da capital paulista, a partir de indicadores como sexo, renda e escolaridade. 0 número de casos de transtornos mentais em áreas carentes foi maior que a média na nos bairros centrais de São Paulo. "0 combate ao problema deve ser intersetorial e envolver as áreas de educação, cultura, trabalho e promoção social", conclui o professor Reinaldo Gianini, responsável pela pesquisa da USP.
De acordo com o levantamento da USP, 24,1%a do total de entrevistados já apresentavam algum quadro compatível com transtorno mental. Segundo a pesquisa, as mulheres de menor renda e escolaridade são as principais vítimas. Representam 28% dos casos contra 21% das constatações em homens. "A complexidade na análise dos dados e o tamanho do estudo foram responsáveis pela demora de mais de quatro anos para a apresentação dos resultados", justifica.
De acordo com o estudo, dinheiro na mão e boa formação escolar são sinais de cabeça tranqüila. Quase 30% dos que vivem ,com até dois salários mínimos foram considerados suspeitos de -transtornos. Entre as pessoas com renda cinco vezes maior que o mínimo, o índice cai para 11%. Das pessoas que se declararam analfabetas, 39% foram consideradas suspeitas de terem transtomos mentais. Já do total de entrevistados com nível superior apenas 14% se encaixaram no grupo de risco.
juventude
Os especialistas em saúde mental não se surpreendem com o resultado e acrescentam que nos jovens, principalmente de famílias de baixa renda, os problemas se acentuam. Além da falta de acesso aos bens de consumo, sofrem com transformação hormonal, sexualidade e cobrança social. Geralmente, os sinais de que algo não vai bem começam quando o desempenho na escola cai, há perda da noção da realidade e alucinações. Nessa faixa etária, se houver demora no tratamento, os transtornos mentais podem gerar psicoses com o tempo.
"O fundamentalismo religioso ao qual alguns jovens estão subordinados tem sido um dos fatores de risco mais preocu
pantes", ressalta Ileno Izídio da Costa, psicólogo da Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, os valores morais e o controle da sexualidade em algumas religiões são rígidos e entram em conflito com a realidade dos jovens do século 21.
Ele coordena um grupo de intervenção precoce na psicose no Centro de Atendimento de Estudos Psicológicos (Caep) da UnB. Costa orienta profissionais em formação do Instituto de Psicologia da UnB, que atendem gratuitamente a comunidade. Pelo Caep passam por mês cem pessoas, sendo 30 adolescentes. Segundo o professor, metade apresenta a religião como fator determinante de desenvolvimento de transtornos mentais.
Espírito
A satisfação em atividades pessoais como a espiritualidade também fez parte das perguntas respondidas na pesquisa da USP. No total, o teste contou com 20 questões sobre assuntos de fundo emocional e físico. As pessoas tiveram como opções de respostas "sim" ou "não" para perguntas como dificuldade de pensar com clareza, sentimento de tristeza seguido de choro, dores no estômago e falta de apetite. As mulheres consideradas casos suspeitos responderam "sim" a pelo menos oito itens do questionário, enquanto os homens considerados propensos a transtornos responderam positivamente a no mínimo seis das perguntas.
O questionário utilizado é reconhecido internacionalmente no meio médico como SRQ-20 (Self Report Questionnaire) e serve para validar cientificamente casos de transtornos de ansiedade, depressão e ajustamento. As questões refletem como o indivíduo tem se sentido nos últimos 15 dias. "Muitos casos só podem ser definidos com o tempo e acompanhado de um profissional de saúde mental", explica o professor Gianini.
A partir do material coletado pelo estudo, os profissionais da USP pretendem fazer uma orientação para as equipes de Saúde da Família De acordo com o professor Gianini esses profissionais poderão ser capacitados para diagnosticar e lidar com a maior parte destes distúrbios considerados leves. "Além do psiquiatra, outros profissionais podem tratar desses problemas, entre eles o psicólogo', diz.
Segundo o professor, também contribuem para o tratamento terapeutas ocupacionais e assistentes sociais. "Dependendo da pessoa, o beneficio pode vir de terapia medicamentosa, psicoterapia, terapeia ocupacional, social ou só da família."
INFORMAÇÕES
O atendimento no CAEP da UnB é gratuito e funciona de segunda a sexta-feira. As inscrições ocorrem entre março e agosto, no início de cada semestre letivo da UnB. Telefone. 3307-2625 - ramal 614
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