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Saúde Mental
Crianças são internadas em clínica por vício em celular
Jornal do Brasil (RJ)
> Vida, Saúde & Ciência
14 de junho de 2008
Caso reabre polêmica sobre uso excessivo do aparelho na infância
Cristine Gerk
Duas crianças na Espanha foram internadas em uma instituição para tratamento de problemas mentais por estarem aparentemente "viciadas no uso do telefone celular". Os jovens aprendizes da era tecnológica simplesmente não conseguiam mais realizar suas tarefas sem portar ou usar o aparelho, e começaram a mentir para parentes a fim de conseguir mais dinheiro para sustentar as conversas telefônicas. A intervenção polêmica das duas famílias neste caso põe em pauta uma discussão atual e preocupante: o vício infantil em celular é uma realidade, ou uma interpretação exagerada de um hábito moderno?
Segundo a imprensa espanhola, as crianças de 12 e 13 anos de idade foram enviadas para a clínica por seus pais. Eles afirmam que elas apresentavam desempenho ruim na escola e não conseguiam brincar ou estudar por ficarem fixadas nos aparelhos. A médica Maite Utges, diretora do Centro de Saúde Mental para Crianças e Adolescentes de Lérida, afirmou que esta é a primeira vez que a clínica trata crianças dependentes de telefone celular.
– As duas mostravam um comportamento perturbado e isto era notado nos problemas na escola. As crianças tinham graves dificuldades para levar uma vida normal – disse a médica a jornais espanhóis.
As crianças ganharam os telefones celulares há 18 meses e seus pais não colocaram nenhuma restrição ao uso dos aparelhos antes de notarem a seriedade da dependência. Há três meses, as duas crianças tentavam se adaptar à vida sem telefone celular, mas não conseguiram.
Os jovens que usam em excesso seus telefones celulares têm mais dificuldade para dormir e sofrem de estresse e fadiga, segundo um estudo divulgado pela Academia Americana da Medicina do Sono em Westchester. Um grupo experimental realizou mais de 15 chamadas e/ou enviou 15 mensagens de texto por dia e, além de problemas noturnos, acabou reportando um estilo de vida descuidado, maior consumo de bebidas estimulantes, além de maior suscetibilidade ao estresse e à fadiga.
Outro estudo, realizado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles e a Universidade de Aarhus, na Dinamarca, com mais de 13 mil participantes, constatou ainda que crianças que usam o celular antes dos sete anos de idade correm mais riscos de ter problemas comportamentais.
Leila Salomão Tardivo, professora do departamento de psicologia clínica da USP, conta que atualmente se observa vício infantil relacionado a muitos aparelhos, como celular, computador e videogame.
– Eu discuto a conduta dos pais espanhóis, porque internação, sobretudo em criança, é o ultimo recurso – pondera. – Mas os pais precisam ficar atentos. Se o uso do celular impede que os filhos façam outras atividades, é perigoso.
Leila explica que não faz sentido voltar aos tempos antigos e impedir o uso do celular, afinal é uma ferramenta que também traz benefícios – como mais segurança para os pais e mais facilidade de interação com colegas. Mas é preciso ter cuidado:
– Os pais têm que controlar o tempo de celular e de outros aparelhos, e estimular os filhos a também praticar esportes, estudar, ler e interagir mais com o mundo real.
A psicóloga acrescenta que é importante proibir celulares durante aulas e esperar a criança atingir idade e maturidade suficientes para usar o aparelho, ou "ela tratará o celular como um brinquedo".
O governo japonês começou um programa para alertar pais e educadores sobre os limites do uso do celular por crianças. O relatório recomenda que o aparelho seja usado apenas quando extremamente necessário, e só para chamadas telefônicas. Também aprova o uso de um celular sem funções de internet, câmera e rádio.
PorCristine Gerk
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